Florianópolis é uma cidade cada vez mais cosmopolita, mas nem só brasileiros vêm se agregando ao contingente que diversificou o perfil da população local. Há muitos estrangeiros morando e estudando na Ilha de Santa Catarina, e isso pode ser visto nas universidades, em atividades como o comércio e a maricultura, nos serviços, nos pequenos negócios individuais e em empresas de todos ramos e portes. Na YPY Sorvetes Premium, não é diferente.

A fábrica tem uma venezuelana, um ucraniano e um haitiano entre seus colaboradores. E cada um tem uma história de vida, uma trajetória que encanta e emociona. É o caso, por exemplo, de Kerling Carolina Caravallo, que saiu da Venezuela no ano passado porque o país enfrentava uma situação calamitosa na política e na economia, com reflexos sérios na rotina da população.

A mãe de Kerling veio antes, se instalou em Cuiabá (MT) e começou a trabalhar numa fábrica de camisetas, até ficar doente. A pior parte da aventura começou quando a família – Kerling, uma irmã de oito anos, dois tios e a avó – decidiu migrar da região de Monagas, a oito horas de Caracas, para o Brasil. “Dormíamos em oito pessoas numa barraca em que cabiam quatro, passamos fome e muito medo na fronteira”, conta ela. O calor do Mato Grosso levou o grupo a se mudar para Florianópolis, onde morou na Casa do Migrante até conseguir alugar uma casa no bairro Bela Vista, em São José.

Kerling mandou um currículo para a YPY, fez a entrevista e foi admitida no mesmo dia. Ela diz que a empresa é muito boa para trabalhar e que o fato de fabricar produtos saudáveis é uma motivação a mais para se sentir bem no emprego. Tirando um episódio de xenofobia que enfrentou numa imobiliária da cidade, afirma que não se sente discriminada, apesar do “portunhol” que usa para se comunicar.

Ela estava quase se formando em Administração Industrial quando saiu da Venezuela, mas garante que depois do que passou está preparada para tudo. Adaptou-se muito bem, assim como a família, ao clima de Florianópolis, ao ambiente de trabalho e às pessoas. “Aqui temos tudo”, diz, comparando a sua situação do momento com as dificuldades enfrentadas pela maioria dos venezuelanos.

DA UCRÂNIA PARA O BRASIL

Mais experiente, com a bagagem de quem já morou em seis países diferentes, o ucraniano Sergii Shaiko se considera “um manezinho importado”. Ele conhece a Grande Florianópolis desde que, em agosto de 2008, seu patrão (também da Ucrânia) instalou uma fábrica de sorvetes em Palhoça. Dois anos depois foi para o Amapá e dali para a Venezuela, onde trabalhou em outra indústria do ramo, a Helados Cali, uma das grandes empresas do segmento no país. Saiu porque a economia venezuelana já começava a dificultar os negócios e o bolívar (moeda local) passou a valer cada vez menos.

Ao voltar para a Ucrânia, em 2013, o país entrou em conflito com a Rússia, e o jeito foi sair outra vez. Formado em Engenharia de Alimentos, com especialização em produtos lácteos, Sergii não teve dificuldades para conseguir o emprego na YPY. Ele diz gostar do trabalho, porque a empresa é muito boa, assim como a cidade. “Aqui não tem a violência de outras capitais do Brasil, e a natureza é muito linda”, afirma.

Sergii mora perto do trabalho, é casado com uma ucraniana e tem um filho de 14 anos. Gosta de praia e faz trilhas, além de ir com frequência ao cinema. “Conheci umas cachoeiras muito bonitas na Ilha”, conta. Filho de pai ucraniano e mãe russa, ele se comunica com os parentes pela internet, o que aplaca “a saudade física, dos abraços”, de seus familiares.

GOSTO PELO TRABALHO E PELA CIDADE

Claudy Sympreux é haitiano e está na YPY há menos tempo, desde outubro de 2018. Formado para dar aulas, foi vítima da crise que reduziu a oferta de trabalho em seu país, deixando muitos recém-formados sem ocupação. Aqui, empregou-se na construção civil, mas a adaptação foi melhor na fábrica de sorvetes. “Gosto muito do trabalho, que é bem tranquilo”, afirma.

Satisfeito com a oportunidade, ele agora quer trazer a mulher, que ainda mora no Haiti. Acredita que ela vai gostar de Florianópolis, porque tem muitas praias, é segura e não discrimina estrangeiros como em outros lugares. “Aqui todos me respeitam”, garante Claudy. Também elogia o clima da cidade, bem menos quente que o do Haiti, enquanto vai tentando entender melhor o português e suas armadilhas. Mora sozinho e gosta de ir para o centro e os balneários, fazer fotos da cidade e das praias. “A cidade é muito bonita”, conclui.